1968 BOMBAS DE GÁS E CONTROLE: MUITO ANTES DE CELULARES E WI-FI

São Paulo – Manifestação dos estudantes secundaristas contra a Máfia da Merenda. O protesto foi violentamente reprimido e dispersado pela polícia (Rovena Rosa/Agência Brasil)

A nossa família se mudou para Belo Horizonte/MG, no Brasil, em agosto de 1967.

Nós chegamos lá pouco tempo depois da publicação de um artigo na revista Reader’s Digest sobre o Brasil: “O país que teve uma revolução sem disparar um tiro”.

A revolução havia chegado ao fim (nós pensávamos). Os comunistas se foram (nós pensávamos) e a vida havia voltado ao normal… – Como estávamos vivendo em uma nova cultura, como poderíamos saber o que era o normal?

Hoje, ao assistir TV e ver a confusão que está acontecendo ao redor do mundo, vem à minha memória lembranças de uma nação que eu aprendi a amar. A nação brasileira estava longe de ser “normal”.

Nós alugamos uma casa em uma região residencial – num bairro novo… uma piscina – sem água, danificada…, ruas de chão batido, o telefone mais próximo pertencia a um vizinho e ficava a três quarteirões de distância – toda a vizinhança usava aquele telefone… Havia sempre um café quente pronto… e era o “centro de notícias” da comunidade. Notícias? Ou fofocas? Talvez um pouco de cada.

Nosso filho mais velho tinha 15 anos, e ele conseguiu um emprego no centro da cidade para ensinar inglês em uma escola de idiomas… Ele pegava um velho e sucateado ônibus municipal para o centro (cerca de uma hora de trajeto) de manhã, e voltava para casa ao final da tarde.

Era uma aventura que ele estava aproveitando ao começar a dar os seus primeiros passos de independência. Aquele dia foi um pouco diferente.

No início da tarde, nossos vizinhos bateram palmas em frente da nossa casa para chamar nossa atenção (sem campainha). Nós levamos um tempo para entender o que eles estavam dizendo… mas as informações não eram boas.

Merril, nosso filho, havia ligado para eles e pedido para passarem um recado para nós.
Ele estava no sétimo andar do edifício comercial da escola de inglês e não fazia ideia de quando ele poderia voltar para casa; pois, na avenida principal, um grupo de comunistas estava fazendo um protesto, e a polícia estava usando bombas de gás lacrimogêneo para dispersá-los – o único problema era que os manifestantes continuavam se reagrupando e voltando. Merrill estava seguro – mas não podia sair da escola.

O pai dele pegou seus documentos de identidade (necessários) e começou a andar para pegar o ônibus para o centro da cidade.

O que eu fiz? Eu comecei a orar. É incrível a fonte de poder que tocamos quando dobramos nossos joelhos e oramos.

Chegando na cidade, meu marido encontrou uma forma de entrar no prédio sem se envolver na confusão das ruas. Ele subiu as escadas (os elevadores não estavam funcionando) e bateu na porta trancada da escola de idiomas. Alguns dos professores a abriram, e ele se juntou ao nosso filho e aos demais, que estavam nas janelas observando a agitação que se passava lá embaixo nas ruas.

Algumas horas depois, a comoção dos manifestantes diminuiu; o gás aos poucos também se dissipou, e estava seguro para ir pegar o ônibus.

Merrill e o pai dele entraram em um dos últimos ônibus que estavam saindo do centro da cidade e chegaram de volta em casa algum tempo depois da meia-noite.

Eu sempre ficava feliz em ouvir suas vozes quando eles chegavam!

Começamos a aprender lições importantes. Os comunistas ainda estavam por perto. Há coisas que podemos falar, outras, não! É melhor aprendermos rápido sobre quando devemos ficar calados. Somos estranhos em uma cultura e língua inteiramente diferentes. Vamos levar anos para começar a entender as nuances dessa cultura, e para os brasileiros aprenderem a confiar em nós.

Afinal de contas, por que americanos se mudariam para o Brasil se isso não fizesse parte de uma agenda oculta?

A palavra “missões” passa a ter outros significados.

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